quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Ad perpetuam memoriam


Neste 5 de outubro lembro os 33 anos transcorridos desde que meu saudoso pai deixou-nos precocemente, antes de completar seu trigésimo-sexto ano de vida.


Por imutáveis o sentimento e o estado de coisas, reproduzo aqui, em linhas gerais, manifestação que consignei por ocasião desta data, noutro ano, no velho Blog do Braga da Rocha. 

Nascido no berço do entrelaçamento de tradicionais famílias mineiras, radicadas na cidade de Peçanha e região, no Vale do Rio Doce, Walter Viriato da Rocha começou ainda bastante jovem a trabalhar no então Banco da Lavoura do Estado de Minas Gerais, que viria a se transformar no Banco Real S.A., onde teve bem sucedida carreira.

Passados os anos, já casado, com dois filhos ainda em primeira e segunda infância, e graduado em Direito, recebeu da instituição financeira a que servia a incumbência de assumir o posto de gerente-geral de agência situada na cidade de São João Evangelista, MG  localidade já então tristemente conhecida em todo o Estado por longo histórico de violência e banditismo, patrocinados nomeadamente por uma família de criminosos que detém o poder político e econômico local.

Não tardou, porém, para que o recém-chegado gerente, cioso de cumprir fielmente suas atribuições funcionais, deixasse de atender aos desmandos habituais da súcia hegemônica naquelas plagas. E não tardou perecer, por conseguinte, cruelmente executado a tiros por seus clientes na varanda de casa, de surpresa e diante dos olhos estarrecidos de sua família.

Padeceu, assim, como mártir da própria boa-fé, do inflexível rigor ético de suas ações, do profundo sentimento de dever e de responsabilidade que norteava sua vida pessoal e profissional.

Colheram-no e a sua família a incivilidade, a ignorância, a covardia, a truculência, a vilania e a barbárie de uns facínoras cujo poder se exerce, há décadas, sob o signo da intimidação, da violência e do terror —, seguidas da insensibilidade, da indiferença, da desonestidade, da mesquinhez, do oportunismo e da cupidez de outros, cujo métier consiste basicamente em locupletar-se à custa da desgraça e da miséria alheias, senão, até mesmo literalmente, do sangue alheio.

Os facínoras e sua amaldiçoada estirpe hoje se encontram confortavelmente assentados em cômodos homesteads, prodigiosos fundos de comércio e valiosas estâncias rurais, depois de experimentar não mais que ligeiramente o sofrimento do cárcere, que por merecimento não haveria de ser menos duradouro que o restante de sua abjeta existência.


É o que resultou da combinação de considerável poderio político e econômico, capaz de em seu favor pôr a soldo advogados de grande renome e escasso senso ético, aliado à inépcia do sistema judiciário em cumprir seu elementar mister de realizar a justiça.

Entre os demais atores envolvidos na trágica história, é não muito diversa a ventura de que todos compartilham.

Há os agora ex-banqueiros, argentários e sanguessugas, a desfrutar da fortuna multi-bilionária acumulada por todos os meios imagináveis, o que permite a descendentes seus, prósperos e faceiros, dar-se a extravagâncias tais como se dedicar a competições internacionais de automobilismo e quejandos.


Há também a malta de causídicos pulhas e velhacos, a gozar da opulência e do prestígio que lhe conferem os sabujos do mundo jurídico, no comando de portentosas empresas de advocacia especializadas na criminosa atividade de lobby junto ao Poder Judiciário, desenvolvida à sombra de escusas e promíscuas, senão genuinamente criminosas, relações com integrantes de tribunais.

E há, por derradeiro, pelo menos um expoente da quadrilha de meliantes travestidos de magistrados  ora ditos, por integrante do próprio Poder Judiciário em arroubo de sinceridade e decência, "bandidos escondidos atrás da toga" , altamente sensível aos referidos lobbies, que hoje se encontra a fruir nababesca aposentadoria custeada pelo contribuinte brasileiro, depois de ver frustrada sua candidatura a uma cadeira no Supremo Tribunal Federal ante a denúncia da prática de venda de decisões, enquanto ministro do Superior Tribunal de Justiça.

Funesto, afinal, apenas o destino daquele jovem pai de família  cuja trajetória profissional o levara a assumir posto de dirigente bancário num longínquo rincão das Minas Gerais, onde defendia os interesses de seu indiferente empregador quando, desafortunadamente, cruzou-lhe o caminho uma quadrilha em forma de celerada parentela.

Fulminou-se assim não apenas a vida de um grande homem, mas também, com decorrentes e sucessivas iniqüidades tamanhas, todas as crenças e esperanças dos destinatários de seu legado de retidão e honradez.

 


Adv. Walter Viriato da Rocha
1942-1978




[originalmente publicado aos 5 de outubro de 2011]






2 comentários:

  1. Vc, Braga, se furtou habilidosa e elegantemente de dar nome aos bois. Mas quem conhece a trágica história da morte seu honrado pai não tem maiores dificuldades de identificar a corja toda envolvida no processo que vc relata na postagem: irmãos Curió, especialmene Gil Evangelista dos Santos, membros da conhecida família-quadrilha de criminosos que fizeram longa carreira de assassinatos e outros crimes em S.J. Evangelista e região; o banqueiro Aluisio Faria, ex-dono do Banco Real S/A, que pouco se importou com o destino da família do gerente morto a serviço de sua empresa; o velhaco criminalista Jair Leonardo, que defendeu com todos as chicanas imagináveis os assassinos no processo criminal; o inescrupuloso processualista Humberto Theodoro Jr., que fez seu costumeiro lobby em favor dos interesses do banco na ação cível; e o então ministro Cesar Asfor Rocha, que liderou o suspeitíssimo, parcialíssimo e aberrante julgamento em favor do banco no STJ. Vc e sua família foram vítimas da sordidez de toda essa bandidagem. Em homenagem ao seu pai e à verdade, não deixe de publicar isso no seu blog.

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  2. No auge dos meus sete anos...mas cresci ouvindo essa lastimável história. E sinto-a como se tivesse presenciado esses dias de dor.

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