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domingo, 10 de maio de 2020

Reminiscências da pescaria na fazenda — excerto da obra autobiográfica 'Memórias & Reflexões', por J. Geraldo


Passo a publicar, a partir de hoje, excertos por mim cuidadosamente selecionados do livro Memórias & Reflexões, de José Geraldo Braga da Rocha. Que sirvam os recortes, aos seguidores deste blog, de aperitivo para a leitura da obra. 




Capítulo IX: Novamente, a Fazenda e coisas mais

Meu irmão mais moço, Antônio, e eu costumávamos passar as férias na Fazenda Cachoeira, depois que a mamãe se mudou com a filhada para a cidade, para estudarmos. Entre as muitas lembranças de então a da pesca de lambaris nos remansos espumosos do ribeirão, coalhados de folhas, gravetos, garranchos e o que mais a correnteza carrega, que costumavam enroscar o nosso anzol de pescador. Senão, usávamos o tanque da chácara, também piscoso, que papai construíra num plano do sopé da encosta, alimentado pela sua pequena nascente, propícia a tal a vegetação do lugar, além das águas vertentes, que desciam da serra na estação chuvosa, e que ele peixara com espécies do ribeirão. As suas águas serviam de bebedouro para o gado em pastoreio na manga, que tinha nome de pasto do Tanque ou da Chácara. No inverno e nas águas, era comum a névoa encobrir toda a encosta, cujo cafezal, da parceria com o seu Efigênio Andrade, dava-lhe um verde intenso, emoldurado pelas muitas árvores e vegetação nativas. (Então, eu ouvia o papai falar na variedade
burbom, que acho seria o plantado na chácara e nos quintais.) Aos poucos, a bruma, algo corrubiana como acontece aqui, era afugentada pelo sol. Eu gostava de ver aquilo pela manhã, da varanda da casa sede, de onde também, em época de capina e de apanha do café, acompanhava a movimentação dos trabalhadores e dos cargueiros, transportando o café para o terreiro ladrilhado da casa sede. Um pouco pra baixo do tanque f cava outra mina ou olho d'água, que nascia num lacrimal coberto de taboas, chapéu de couro, juncos e outras espécies aquáteis, que, após represada e servir de bebedouro ao gado que lá pastorava, escorria pelo valado adrede aberto.

Atravessando o quintal de canas, do lado direito da casa sede, ia o regato servir a porta da cozinha. Outro braço desaguadouro, à esquerda, ia abastecer de água a casinha de ordenha, onde ficava a queijaria e a moradia de vaqueiro casado. O estreito canal ou rego era freqüentemente limpado de folhas e entulhos mais, que teimavam obstruí-lo. Até hoje surde ali a preciosa água, embora com menor vazão. No quintal da casa sede, próximo de onde ficava a antiga bica d'água de madeira, que despejava mais de telha do precioso líquido, o Arnaldo represou-a em comportas de alvenaria, onde cria e recria tilápias. Encanada a partir dali, vai servir a casa sede. Já não há o bicame; não há água suficiente para isto. (O que será desse povaréu, com o minguamento das águas, senão, em muitos casos, sumiço das nascentes, descuidadas pelo Governo, pelos proprietários dos terrenos e diminuição das chuvas? E o calor escaldante, conseqüente ao aumento da temperatura do planeta, reconhecida pela própria ONU, faz presença inclemente, preocupante. Aliás, alguém do povo me disse, com seu jeito de entender os mistérios do tempo: Estão falando que o Sol desceu ou a Terra subiu! Se não fora estapafúrdia a idéia, seria boa versão para o grave momento, sob comando de El Niño, o tendeiro da vez! Os tempos hodiernos estão diferentes dos de meio século atrás! Eu teria uns 15 anos de idade quando li nalguma publicação do papai, lá mesmo na fazenda, da eventualidade do aquecimento do planeta. Embora as modificações climáticas ocorram muito lentamente, imperceptíveis quase, estão aí, cerca de 50 anos depois da notícia, o que nos faz conjeturar o que virá proximamente! [...]).

Voltando à pescaria de antanho, depois de horas à beira do córrego a gente levava pra casa, numa fieira, em formato de forquilha ou num encambado de embira de malvarisco, fazendo as vezes de samburá, pencas de piaus de nadadeiras raiadas de vermelho, piabinhas ou lambaris, apanhados na féria do dia – de que logo depois a boníssima Maria Domingas preparava para nós saborosas fritadas, empanadas em fubá. A gente não se contentava de comer um, dois ou três peixinhos, mas sim quantos perdurassem na travessa. A gula pedia mais e mais crocantes petiscos, tão bem passados pela boa cozinheira.

Até o papai e os vaqueiros iam pescar mandis e traíras, à noite, quando as chuvas de final de primavera ou já em curso o verão faziam o ribeirão subir vezes sem conta e derramar-se sobre as margens, inundando as largas e extensas vazantes de arroz, que fecundava, cultivadas pelo seu Efigênio Andrade, em parceria com o papai. (Só depois eu tomaria conhecimento dos campos de arroz de sequeiro, que fazem a riqueza do pampa gaúcho, que a gente nem imaginava existir, conhecedor que era apenas do de alagados. Quando vejo rizicultores trabalhando em vazantes, com água até os joelhos, lembro-me do seu Efigênio Andrade, as calças dobradas, plantando ou ceifando o cereal nas vazantes da fazenda, à semelhança china.) Então, ao amanhecer depois de noites de muita chuva de verão, o que era freqüente, eu corria à borda do terreiro da cozinha, para ver o ribeirão cheiíssimo, transbordante. De lá gostava de ver a vazante inundada de água turva, encobrindo a vegetação – que, depois, ao baixar, deixava sedimentos que a fertilizavam e propiciavam ubérrima produção do cereal. (Mais tarde, compreenderia a observação do historiador grego Heródoto, de que O Egito é uma dádiva do Nilo.) Dizia-se que esses peixes maiores, a cuja pesca íamos nessas ocasiões, só se aproximavam do anzol com a água avolumada e suja da terra levada pela torrente à calha do ribeirão. Então, à noite, a gente ia com os adultos à pescaria, sentindo-nos os tais à beira do ribeirão, fora de horas (que porém nem tão tarde era, senão para nós criançolas!). Às vezes, a aventura nos levava, com papai e serviçais, até a represa da usina, aquele mundão d'água piscosa, como nos parecia, que também atraía pescadores de derredor e até da cidade, munidos de caniços longos, que, mais do que os nossos, alcançavam longa distância da margem. Porém, ainda não havia molinetes nesse mundinho tacanho. Antecedia a pescaria a azáfama do preparo de varas de anzóis encastoados em trançados de arame, para proteger a linha da serrilha dos peixes, os lastros de chumbo para fazê-los afundar n'água, e as minhocas, que, apanhadas em locais úmidos, eram aquarteladas em samburás forrados com o húmus em que recolhidas e levadas hidratadas à beira d'água, para servir de isca. Às vezes, levávamos também a nossa matalotagem, para comermos à beira d'água, algo como piquenique que era aquilo, e aprestos para enfrentar mosquitinhos-pólvora, que vinham zunir e picar as orelhas do pescador, que, na tentativa de afugentá-los, se viam obrigados a se estapear, a praguejar e a se irritar. (Pois, não há mesmo prazer que não tenha o seu desgosto, o seu contrário, como diz a sabedoria popular!) Aí, os que eram fumantes baforavam de cigarros de fumo de rolo, como os serviçais, ou de indústria, como o papai, na tentativa de afugentar os incômodos e persistentes maruins. Senão, era fazer uma fumaceira perto, com trapos de pano, folhas secas ou úmidas, sabugo de milho e não sei o que mais, de combustão lenta, à falta dos modernos repelentes. Cada pescador adulto quase sempre pescava pelos menos uns dois ou mais peixes graúdos, o que já era motivo de festa. Porém, qualquer de nós que apanhássemos mais peixes do que os outros, pequenos ou grandes, ouvia logo a irônica pecha quanto mais bobo, mais peixe! Antônio tinha um medo dos diabos da ferroada de traíra e mandi, donde, das raras vezes em que os fisgava, era algum adulto que os retirava do anzol. Se a pescaria não rendia logo, o papai não demorava a perder a paciência, sôfrego que sempre foi. Então, era voltarmos a casa, samburá vazio ou pouco fornido, e aguardar outra oportunidade para repetir o divertimento.

No ribeirão de casa, a gente costumava deixar o anzol ferrado n'água, na esperança de fsgar peixe taludo, como piau, traíra ou mandi, que, para nós, pescadores de lambari, era façanha e tanto. Na manhã seguinte, ansiosos para ver o resultado da empresa, corríamos ao local. Se constatávamos que a vara, ao ser movimentada para trás, se curvava em arco com o peso da presa fisgada, era rir de orelha a orelha e coletá-la, com cuidado, senão levar o pescado suspenso no anzol, exibindo-o, para logo ser consumido no almoço. A mamãe tinha um medo sem igual das espinhas desses peixes maiores, como a traíra, além do piau, que tem a espinha em forma de ípsilons (yy) entranhada na carne, o que não deixava de nos contagiar. Certa vez, a vara arqueada trouxe baita surpresa: o apresado era um pequeno cágado, que o povo chama de sapo-concho! Deu um trabalhão danado livrá-lo do anzol e devolvê-lo à corrente d'água, ante a sua insistência de recolher o longo pescoço, com anzol e tudo, às entranhas sob a carapaça. Vai, quelônio, vai!, foi afinal a nossa palavra de ordem ao vagaroso réptil, que então se meteu n'água de novo, naquele nado cachorrinho. Melhor tivesse o anzol se enroscado nos juncos que margeiam o corgo, do que aquilo. Mas valeu a curiosidade de fisgar bicho tão diferente, parente, parece, do jabuti e da própria tartaruga, de maior porte, que, claro, inexiste por aqui.

Os rebojos piscosos do ribeirão Jambeiro – formado pelo vertedouro da represa da usina –, que passa pela fazenda, eram também propícios à nossa natação incipiente. A gente pulava da ponte num desses redemoinhos d'água, onde a água quase não dava pé. Dávamos as nossas braçadas e pernadas, com o que logo alcançávamos vau, pouco extenso que era o fojo do pequeno curso. Engraçado: há pouco tempo estive no local com o irmão desses folguedos. O local, diferente, o ribeirão, acanhado, quase rasoura ou varador só, a ponte não está no mesmo lugar, foi arredada um tantinho pra baixo donde ficava, nem tem a altura de antes, quando a água das cheias chegava quase a cobri-la e torná-la ponte afogada; agora, parece de menor caudal. Ou seria porque, como ressabido, demuda a dimensão do mundo entre a visão da criança e a do adulto? Porém, perto dali, no início da cerca de arame farpado, varando espigão, na confrontação do pasto do Borges com o da cozinha, como cógnitos esses pastios, continua de pé o mourão de braúna, de ponta chanfrada, pra não juntar água de chuva. Braças de rodo o cujo, já desbotado o negro da madeira, dando mostra das mazelas do tempo. Fora fincado como mourão da então recém-confeccionada cerca de arame farpado, de quatro fios, tesos que nem corda de violão – por certo, arte do seu Luis Pires. Tão parrudo o madeiro, que nem careceu de estronca para firmá-lo chão adentro, para não se mover com a torção do aramado. Serviria ainda, a partir daí, para demarcar o tempo vindouro! A mando do papai, cravei-lhe a formão a data, já bosqueja, de 19 de julho de 1963. O então quase-cunhado Otacílio Marilac, vindo da Fazenda Marinheiro, onde tinha naco de terras, com destino à cidade para noivar minha irmã (com quem se casaria em 21 de dezembro seguinte), ficou escarranchado e fumando por meia hora ou mais à sela do cavalo ajaezado, sobre a ponte, olhando ali perto o meu labor de entalhador das dúzias (expressão da mamãe, para designar algo pouco valioso), para depois, concluída a datação do grosso tronco, seguirmos em conversê a penates. Faz pois meio século – e lá vai pedra! – o episódio.
[...]

segunda-feira, 27 de abril de 2020

A propósito da arte de produzir prefácios

Receita de prefácio ou orelha de livros
por
Jorge Fernando dos Santos

"o verdadeiro prefaciador ou orelhista deve ser de natureza pusilânime, o tipo que morde e sopra ao mesmo tempo – barata kafkiana –, sendo incapaz de reconhecer a própria incapacidade de dizer que o texto alheio é uma obra-prima ou covarde o bastante para não afirmar que se trata apenas de uma indigesta sopa de letrinhas sem o devido tempero estético."


https://domtotal.com/artigo/4020/26/12/receita-de-prefacio-ou-orelha-de-livros/





sexta-feira, 17 de abril de 2020

Prefácio à recém-publicada obra 'Memórias & Reflexões', de J. Geraldo



https://bragadarocha.blogspot.com/2020/04/memorias-e-reflexoes.html


Recebi de meu caríssimo tio J. Geraldo — a quem, conforme cediço, sempre prestei a devoção que se rende a um pai — a incumbência, tão honrosa quanto árdua e desafiadora, de compor o prefácio desta substanciosa obra, com que traz ele a lume suas Memórias & Reflexões, produzidas e recolhidas ao longo dos mais de 70 anos de vida. 

Não poderia cultivar a pretensão de entabular, em breve e modesto escrito como este, um autêntico diálogo com a vasta extensão e pluralidade de lembranças e idéias contidas no livro, assentadas sobre um amplo, rico e não raro erudito universo de interesses, que vão da experiência da vida interiorana e rústica à ciência e à cosmologia, das tradições culinárias à filosofia, das manifestações da linguagem à política, da sétima arte à poesia, do folclore regional à onomástica e à toponímica, do conhecimento jurídico à teologia, da literatura universal à história. 

De muitos desses interesses, aliás, ensinou-me o autor a compartilhar, em meio a divagantes prosas e deleitáveis tertúlias que, desde ao menos minha adolescência, de tempos em tempos costumamos ter, a varar a madrugada — no intimista e acolhedor espaço da cozinha de sua casa ou no instigante ambiente de sua valiosa biblioteca, que sempre freqüentei —, quase invariavelmente regadas a um saboroso café ou a inspiradores beberes outros. 

Vejo consignar-se, dessarte, no longo e denso texto ora publicado — ad perpetuam memoriam, pois conforme preceitua o velho adágio: scripta manent! —, muito do fértil e imensurável saber do autor, de que um naco pude haurir em longo aprendizado, assim como profusas notas, referências e libações à gloriosa, conquanto por vezes dura e penosa, trajetória pessoal, familiar e social de muitos coetâneos seus e de tantos antepassados nossos em comum, cingidos todos pelas relações de amizade ou por linhagem de estirpe. 

A mim, porém, cumpre e importa salientar, sobretudo e com preeminência, para tento do leitor que por estas páginas decida se aventurar, o belo, precioso e fecundo registro, que a obra congrega e nos convida a degustar, da magnífica realidade da vida quotidiana em um peculiar rincão das Minas Gerais, nomeadamente ao longo de meados do século XX, com seus personagens, seus modos, seus códigos, seu linguajar, seus usos e costumes, suas tradições — uma realidade escassamente ou nada conhecida pelas subseqüentes gerações, até porque a pouco e pouco dissipada ou mesmo já extinta com o advento do complexo e multifário modus vivendi contemporâneo. 

Eis, pois, o tipo de obra que, embora perpasse com nitidez o gênero autobiográfico, a ele não se confina — antes, está a representar, estreme de qualquer dúvida, valioso acervo de elaborados registros, via recordações e reminiscências várias, concernentes a um tempo e a um lugar da non perdersi na memória coletiva do porvir —, e que se destina a ocupar, em nossa biblioteca, aquele singular e nobre espaço no qual se situam livros que não apenas desejaríamos ter escrito, em possuindo talento e determinação bastantes para tanto, mas, sobretudo, cujas passagens e histórias gostaríamos de ter o privilégio de haver testemunhado e vivido.

Belo Horizonte, janeiro de 2020
Renato Amaral Braga da Rocha



quarta-feira, 15 de abril de 2020

'Memórias & Reflexões', por José Geraldo Braga da Rocha


É com grande satisfação que faço saber a familiares e amigos, e a quem mais interessar possa, que acabam de sair do prelo os primeiros exemplares da obra Memórias & Reflexões, de autoria de meu caríssimo tio, peçanhense de escol e magistrado José Geraldo Braga da Rocha — cujo prefácio tive a honra de escrever e cuja edição, do design à materialização do corpus mechanicum, foi cuidada com extraordinário esmero pela escritora, artista plástica e produtora cultural Dôra Borges. 

Em breve, pois, conforme já anunciado, haverá a obra de ser encontrada em algumas das mais prestigiosas bibliotecas públicas e privadas de Santo Antônio do Descoberto do Peçanha, das Minas Gerais e do País.


Prefácio à obra, por
Renato Amaral Braga da Rocha